segunda-feira, 24 de maio de 2010

Nietzsche e o Nascimento da Tragédia - no YouTube

      Ontem, navegando como quem não quer nada dei de cara com esse vídeo. É um programa sobre o livro do Nietzche que está sendo resenhado aqui debatido pelo excelente Paulo Ghiraldelli Jr e apresentado por um âncora meio surtado. Excelente programa de Filosofia este Loucuras Filosóficas. Veja no link:

http://www.youtube.com/watch?v=m_oaT_tAzgE

sábado, 22 de maio de 2010

Édipo e a Esfinge

Nietzsche e o Nascimento da Tragédia

        A edição deste texto é acompanhada por um prefácio do próprio autor construído anos mais tarde no qual ele avalia essa sua obra de juventude. Começa por chamá-lo de bizarro e mal acessível. Apresenta-nos a tese principal da obra (o nascimento da tragédia a partir do espírito da música) para, em seguida, cobrir-nos de indagações.  O que levou os gregos a necessitarem da tragédia? Seria o pessimismo um sinal de declínio civilizatório? O que foi o mito trágico? Qual o papel do socratismo e de seu filho - o homem teórico - na morte da tragédia? E mais: é o cientificismo, obra do homem teórico, uma tentativa malograda de curar o pessimismo?
       Nietzsche afirma que, ao escever o livro, deu de cara com o problema da ciência, problema que também ocupará suas discussões e servirá para mostrar os frutos mediocrizantes e banalizadores do socratismo entre nós. Embora afirme  que, dezesseis  anos depois, o livro lhe pareça estranho, pesado, sentimental e, até, desagradável, reconhece sua ousadia em querer "ver a ciência com a ótica do artista, mas a arte, com a da vida..."
      Reconhece, ainda, que o livro é para inciados e para aqueles que "foram batizados na música", veículo do dionisíaco. Dezesseis anos passados, Nietzsche revê a eloqüência do texto, mas mantém a pergunta sobre a necessidade da tragédia.
      Inquire se o anseio grego pela beleza se sustenta na relação desse povo com a sensibilidade, com a dor. Neste caso, então, o anseio pelo feio, pelo mito trágico, pelo que há de mais aniquilador e fatídico, deve ser buscado onde?
      Retomando o prefácio da Richard Wagner, Nietzsche argumenta que é a arte, não a moral, a atividade metafísica por excelência e só enquanto fenômeno estético a existência do mundo se justifica. Assim, o artista é colocado como um 'deus', inconsiderado  e amoral, que, em seu prazer e autocracia, em razão da necessidade de se livrar da abundância, da superabundância e do sofrimento, constrói e destrói mundos.
      Nesse prefácio posterior, o autor reconhece, no pendor antimoral do txto, um precvavido e hostil silêncio em relação ao cristianismo, religião que "foi desde o início, essencial e basicamente, asco e fastio da vida na vida, que apenas se disfarçava, apenas  se ocultava, apenas se enfeitava sob a crença  em 'outra' ou 'melhor' vida. O ódio ao 'mundo', a maldição dos fetos, o medo à beleza e à sensualidade, um lado-de-lá inventado para difamar melhor o lado-de-cá" (p. 19). Essa afirmação dos valores morais no crisitnaismo é vista, então, como uma ds principais  formas de uma vontade de declínio. Para o autor, em suma, o livro é um libélulo contra a moral, a favor do insitinto de vida, configurando-se numa contradoutrina essencialmente artística e contracristã, denominada dionisíaca.
    Por fim, Nietzche reconhece seus erros de interpretação das leituras, feitas à época, das obras de Kant e Schopenhauer. Reconhece que este último lhe dizia uma coisa sobre o espírito trágico, enquanto Dionísio lhe afiormava outra, ou seja, o espírito trágico não conduz à resignação. Um segundo erro, para o autor, são suas esperanças no tocante à música alemã (O Caso Richard Wagner) e ao 'ser alemão', cujo caminhar para uma sociedade democrática revelava-se uma "passagem para a mediocrização acomodante" (p. 21). Entretanto, o grande ponto de interrogação dionísíaco permanece: Como deveria ser composta uma música dionisíaca?
    O livro que se diz contra o romantismo, pergunta o autor, não é ele mesmo um livro romântico e, portanto, anti-helênico? Nietzsche termina esse prefácio com Zaratustra e seu riso santo. Particularmente, eu não percebi no livro esse asco romântico paontado posteriormetne pelo autor. Percebi,sim, uma força nas palavras que só um espírito  jovem em extâse é capaz de produzir. Realmente, Dionísio estava com ele. Apolo também. 
[to be continued]
Fernanda Meireles

Nietzsche e o Nascimento da Tragédia - II

         Vamos ao livro. A obra divide-se em 25 partes, bem ao costume do autor, com títulos numéricos e palavras-chave, no sumário. A obra inicia-se com o autor defendendo que o desenvolvimento da arte deve-se à duplicidade do apolíneo e do dionisíaco. Essa duplicidade, no mundo helênico parte da contraposição de origens e objetivos entre as artes apolínea do figurador plástico e a arte dionisíaca do músico. Ese incitar mútuo e esse caminhar lado a lado, num ato da 'vontade' helênica, geraram um emparelhamento cujo fruto foi a tragédia grega.
        O jovem Nietzsche parte daquilo que ele chama 'dois universos artísticos' - o sonho e a embriaguez, correspondentes, a seu ver, aos universos apolíneo e dionisíaco, respectivamente. Começa por abordar o sonho, universo apolíneo no qual artistas plásticos e poetas vão buscar sua inspiração. Trata-se do uiverso da aparência, da forma. O artista agiria, portanto, como o filósofo, ao observar as formas desse universo e usá-las na interprertação e na ação do viver. Apolo, enquanto deus configurador, é também um deus divinatório. Ao dar forma, permite a interpretação e a  ação.
       Uma marca da inteligência visionária de Nietzsche é que, ao falar do universo do sonho, faz referência ao "fundo comum de todos nós" (p. 29), numa alusão antecipatória do que viria a ser conceituado como inconsciente coletivo. Porém, a ação configuradora de Apolo encontra um limite naquilo que a imagem onírica não pode ultrapassar, caso em que se derivaria para o patológico. O olho apolíneo deve ser solar e configurador, para que não se perca no mar de imagens revoltas que afloram daquele fundo comum. Daí, Apolo ser tomado como o principium individuatonis - o princípio de individuação. Apolo é o endeusamenteo desse princípio dado que esse processo é a meta visada pelo Uno Primordial. Ele é sua libertação através da aparência. É preciso tomar forma e, por isso, é necessário a medida. Por isso, o "Conhece-te a ti mesmo" é acompanhado do "Nada em demasia".
       Se o princípio da individuação se rompe, terror e êxtase apoderam-se do ser humano. Está-se no território do dionisíaco cuja intensidade rompe as barreira sdo indivíduo, levando à integração despersonalidora com o Uno Primordial. Nesse território, a natureza e seu filho perdido - o homem - reconciliam-se. Na união, o homem se sente 'deus', obra de arte para a satisfação do Uno.
      Como ponto de confluência desses dois impulsos, o artista se torna onírico e extático. O influxo apolíneo revela-lhe seu estado de união profunda com o Uno, seu estado extático. É a forma produzida pelo sonho revelando ao sonhador seu estado presente. Entretanto, é importante lembrar que o grego dionisíaco difere do bárbaro dionisíaco justamente por sua contraface apolínea.
      Essa reconciliação entre Apolo e Dionísio permite transformar o rompimento do princípio de inividuação em algo artístico. permire que o grego apolíneo receba o ditirambo dionisíaco com assombro e temor de que aquilo, afinal, possa ser compreensível sob as formas manifestadas por Apolo. A música de Dionísio, a forma de Apolo.
     Mas antes de elaborar a questão da tragédia, Nietzsche desconstrói a cultura apolínea em busca de suas bases. Inicia afirmando que no encontro com os deuses  olímpicos só há uma opulenta e triunfante existência, onde tudo é divino, sem bem ou mal.Nietzsche mostra que, para sobreviver, para resistir às froças titânicas da natureza, ao destino implacável, os gregos tiveram que colocar entre eles e a vida um sonho - a criação onírica do Olimpo e seus habitantes.
     Os gregos precisaram criar os deuses, produziram a teogonia olímpica por meio do impulso apolíneo da beleza.  Num espelho, a existência dos deuses legitima a vida humana.
      A unidade entre o ser humano  a natureza produziu, na cultura grega, o "ingênuo" (aquele que crê na beleza da aparência) na arte, mas a um alto preço: era preciso  derrubar titãs, matar monstros, vencer as terríveis e profundas considerações sobre o mundo. Só através da froça da forma onírica, essa batalha pode ser levada  a efeito. Só por meio do triunfo da ilusão apolínea, Homero pode ser compreendido. "Nos gregos a 'vontade' queria, na transfiguração do gênio e do mundo artístico, contemplar a si mesma: para glorificar-se, suas criaturas precisavam sentir-se dignas de glorificação, precisavam rever-se numa esfera superior, sem que esse mundo perfeito da introvisão atuasse como imperativo ou como censura" (p. 38).

Apolo

Nietzsche e o Nascimento da Tragédia - III

        O mundo apolíneo do grego, construído sobre a aparência e sobre a amedida, sofre duro baque com a chegda do culto dionisíaco, mas não perece. A arte dórica foi seu acampamento de guerra. A união entre esses dois impulso dá origem à tragédia ática.
        Fechando mais sua investigação, Niestzsche mostra que os poetas Homero e Arquíloco devem ser considerados os pais da poesia grega. De naturezas muito distintas, os dois poets representam fontes díspares dentro da dultura grega. Homero, o artista naïf (ingênuo), sonhador, apolíneo - o artista épico, contrapõe-se ao belicoso Arquíloco, contraditório, ébrio, dionisíaco -  o artista lírico. Vemos, dese modo, que o autor defende o universo dionisíaco como terra mater do poeta lírico, o qual não é coberto adequadamente pelo termo técnico de poeta subjetivo. Sua subjetividade se encontra destruída no encontro dionisíaco com  o Uno Primordial. Quem canta não é Arquíloco mais, mas sim Dionísio que, usando das formas plásticas configuradoras de Apolo,  dá voz ao centro-motor da existência. A subjetividade aqui não tem nada a ver com a personalidade empírica do sujeito no mundo concreto.
       No caso do poeta lírico, trata-se de outra 'eudade': "...ele, como centro motor daquele e mundo, precisa dizer  'eu': só que essa 'eudade' (Ichheit) não é a mesma que a do homem empírico-real, desperto, mas sim a única 'eudade' verdadeiramente existente (seiende) e eterna, em repouso no fundo das coisas... Arquíloco, o homem apaixondamente ardoroso, no amor e no ódio, é apenas uma visão do gênio, que já não é Arquíloco, porém o gênio universal, e exprime simbolicamente seu sofrimento primigênio naquele símile do homem Arquíloco"(p. 45). 
        O conhecer se nos apresenta em estado puro, em força aniquiladora, à qual a personalidade empírica não resiste. O sujeito egoista não constitui, por isso, o sujeito artístico, ao contrário, é um adversário da arte. Quando liberto do querer egocêntrico pode, então, o sujeito ser o meio de manifestação da existência e através dessa manifestação redimir-se e ampliar-se. E Nietzsche vai mais longe ao propor que devemos nos lembrar sempre de que somos, para o criador, imagens e projeçoes artísticas, de que só como fenômeno estético nossa existência e o mundo podem ser justificados. É maravilhoso comprender as coiss sob esse viés. Traz a existência humana à dimensão da beleza e impõe-nos com uma responsabilidade existencial suprema: fazer da sua vida o melhor que deve ser feito, carregar nas cores, construir harmonias e dissonâncias, verter a alma universal no canto individual.
        Retomando Arquíloco, o autor afirma que os estudos sobre a Grécia mostram que foi ele o introdutor da canção popular na literatura. Essa canção popular, na verdade, é um vestígio da união do apolíneo e do dionisíaco. Nietzsche argumenta que todo período marcado pela alta produtividade da música popular deveria ser considerado um período de forte manifestação do dionisíaco, seu substrato e pressuposto, porque esse tipo de canção constitui um manifestação da melodia primeva aliada à aparência onírica que a poesia lhe proporciona. São palavras do autor: "Na poesia da canção popular vemos, portanto, a linguagem empenhada ao máximo em imitar a música: daí começar com Arquíloco um novo universo da poesia, que contradiz o homérico em sua raiz mais profunda. " (p. 49). Fundamental é ter claro que aquilo que Nietzsche chama de música popular está qualitavamente muito distante e acima do que hoje, nos tempos do pop e outros 'lixos  musicais', é chamado grosseiramente e inadequadamente de música popular. A música da massa é pop, mas não é popular. A civilização ocidental está muito aquém daqueles helenos  e Sócrates é um dos responsáveis por isso. Não somos helenos, somos graeculus, o escravo doméstico, bonachão, espertalhão e democrata.
       Na Grécia do mito trágico, a melodia popular, primeva, é vertida em imagens, em palavras, originando a canção estrófica popular. Nesse cenário, a música aparece como vontade, como vontade de expressão do universo dionisíaco por meio da configuração onírica. O artista, assim, é dionisíaco e apolíneo ao mesmo tempo, ele é o desejante e o contemplador e plasmador de si e do desejo. A linguagem cria um símile daquilo que o dionisíaco carregada e esse símile é freqüentemente revivido/reconstruído porque nunca dá conta de expressar completamente sua carga original.