sexta-feira, 3 de junho de 2011

Uma erótica solar - parte 2

          Outro aspecto da libido libertária discutido por Onfray é a questão da esterilidade voluntária. O autor inicia o assunto afirmando q a possibilidade fisiológica da concepção não constitui uma obrigação moral: o vc pode não significa vc deve. Entretanto as coisas ainda são tratadas dessa forma. E os indivíduos q optam por não terem filhos são questionados ou mal vistos pela sociedade. Muitas vezes são tachados como egoístas ou insensíveis.
            Mas ninguém questiona aquele q gerou um filho para realizar um sonho ou para nele projetar um monte de frustrações ou projetos não realizados. Ninguém discute a concepção não planejada e os problemas sociais, econômicos e psicológicos q ela traz consigo. Muitos tratam os filhos não planejados como um estorvo, algo q está ali para atrapalhar seus projetos de vida.
               Onfray mostra q é justamente quando se ama e se deseja verdadeiramente um filho é que se reflete e se planeja sobre o assunto. E é preciso, antes de tudo, se conhecer e estar maduro, seguro de si, com seu ser e sua vida construídos, porque um filho tem direito pleno ao amor e à vida, às melhores oportunidades e à atenção integral dos pais. Caso vc tenha outros planos para sua vida, o encargo que é dar ao filho tudo isso que é de direito dele deve ser bastante avaliado. Então, optar por não tê-los é, antes, uma decisão responsável e madura do q um ato egoísta ou socialmente e economicamente válido.

             

Bem vindo ao deserto do real

Sabe aqueles dias em q vc acorda, abre um olho, abre o outro e diz "a coisa não é bem assim"... pois é, hoje eu acordei Trinity de tudo. Netzach.


             
 
(Eu fiz esse post no litterofagia pela manhã, mas o lugar mesmo dele é aqui porque sonhar q vc está numa matrix e q corre o risco de ser descoberto a qqr momento deixa vc desperto... Ainda escrevo mais sobre isso. Foi um dos sonhos com maior dose de realidade q já tive. Eu optei pela pílula vermelha. Alea jacta est)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

                           

Uma erótica solar

      Depois de meses sem postar, resistindo a uma cobrança freqüente por ter abandonado essas minhas leituras, hoje retorno com uma resenha da terceira parte do livro de Michel Onfray, cujo título encabeça esse post. Voltei à leitura desta parte e nela, mais uma vez, me encontrei.
         A defesa da libido libertária se faz contra um pano de fundo marcado pelo ideal ascético. Tal ideal, segundo Onfray, se caracteriza, inicialmente, pela mitologia judaico-cristã da falta. A tradição platônica, reciclada pelo cristianismo, produziu um corpo esquizofrênico, que se vê e se sente sujo, intensificando a pulsão de morte, a fruição de objetos submetidos pela violência ou pelo poder econômico.
        Essa máquina de produzir santos, eunucos, virgens, mães e esposas (nas palavras do autor) se construiu por meio da submissão do erotismo feminino e do mito do desejo como falta. O desejo como carência produz a frustração porque o seu objeto nunca irá concretizar o ideal que é projetado em si.
         Esse ideal ascético comporta ainda uma ideologia familista. Nela, o instinto gregário da espécie se mascara no discurso amoroso, mas, na verdade, sustenta um contrato social, um seguro de vida e, na maioria dos casos também, uma relação de dependência neurótica. Essa composição básica – a família – se reduplica em outras instâncias sociais mais complexas (o estado e a religião), camufla a permanência do mamífero.
       O ascetismo se completa com a domesticação e o controle do desejo, com a anulação da potência erótica feminina. O desejo feminino antes de tudo está aí para confirmar a potência do masculino, para sustentar seu orgulho falocêntrico. A mulher morre na figura da mãe e esposa.
          Já a libido libertária pauta-se no ‘eros leve’, o qual inicia-se pela dissociação entre amor, sexualidade e procriação. O uso de métodos contraceptivos quebra o elo entre sexualidade e procriação, permite a sexualidade pelo prazer sem o peso da geração vivida como punição. Resta, então, discutir o que se esconde cultural, social e psicologicamente sob a denominação de amor.
       Caso, amor seja entendido como afeto, ternura, a relação sexual não precisa ficar presa a planos futuros e a contratos afetivos de média ou longa duração. Ela será tão somente o desejo de viver, de desfrutar um instante pleno de pulsão de vida, no qual o desejo não é falta que se quer preenchida, mas transbordamento de vida. Não há necessidade de uma gravidade e uma seriedade, mas a leveza de se estar vivo e querer compartilhar isso: “Entre a inocência bestial, a inconseqüência de uma banalização da troca de carne e a transformação do ato sexual em operação embebida de moralina, existe um lugar para uma nova intersubjetividade leve, doce e terna” (p. 66). E aqui observa-se a redefinição do desejo como excesso, como transbordamento. “Eros não provém do céu das idéias platônicas, mas das partículas do filósofo materialista. Donde a necessidade de uma erótica pós-cristã, solar e atômica” (p. 60/61).
          Esse eros leve pleno de potência de vida é móbil, mutante, criativo, o oposto do eros pesado da tradição cristã, indexado à pulsão de morte. E por que atômica? Onfray responde: “A construção de situações eróticas leves define o primeiro gfrau de uma arte de amar digna desse nome. Ela supõe a criação de um campo de vibrações atômicas em que pairam as pequenas percepções dos simulacros. De Demócrito à neurobiologia contemporânea, passando por Epicuro e Lucrécio, somente a lógica das partículas pode cortar em pedaços o fantasma das idéias platônicas sobre esse tema” (p. 66). Para aqueles que acham q o cara está viajando, vale realmente dar uma olhada em algumas considerações da neurobiologia atual, como em António Damásio e suas postulações sobre a física quântica e as relações neuronais.
         A construção de relações eróticas leves se dá, então, não pela força de um contrato social ou de uma ligação neurótica, mas pela reiteração de situações eróticas leves, uma história peça por peça, que venha a durar o quanto tiver realmente que durar. Tais relações só serão possíveis entre solteiros e, nesse momento, ele não reduz o termo ao estado civil, mas o redefine como aquele indivíduo “que, apesar de comprometido numa história que podemos chamar de amorosa, conserva as prerrogativas e o uso da sua liberdade. Essa figura preza muito sua independência e desfruta da sua autonomia soberana. O contrato em que se instala não é de duração indeterminada, mas determinada, possivelmente renovável, decerto, mas não obrigatoriamente” (p. 67).
      As relações eróticas leves substituem o tradicional esquema tudo/nada pela configuração nada, mais, muito: dois seres que se desconhecem, se encontram, reiteram os encontros por desejo, na busca de mais ser, de mais expansão, de mais júbilo, de mais serenidade e, quando esse mais se concretiza, aparece o muito, aquele que qualifica uma relação rica, complexa, e leve!

                                              

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Juntando minha voz à voz da ATEA


          Uma campanha da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) pretende combater o preconceito contra os ateus, colocando em ônibus urbanos cartazes que ridicularizam certas crenças prejudiciais ao ateísmo. Uma delas é, por exemplo, que, dada a premissa – falsa – de que a religião é a fonte da moral, o homem sem religião não tem moral ou caráter.
      Contra esse preconceito, a ATEA preparou um cartaz que afirma: “Religião não define caráter. Diga não ao preconceito contra ateus”. E pôs o retrato de Charles Chaplin, com a legenda “Não acredita em Deus” ao lado do retrato de Adolf Hitler, com a legenda “Acredita em Deus”.
                                                                                    in: http://antoniocicero.blogspot.com/

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

domingo, 21 de novembro de 2010

Evitando o vazio

   SERÁ QUE PODEMOS contemplar o vazio absoluto? E se pudermos, será que tal coisa - a ausência de tudo- existe? O que definimos como o "nada" mudou radicalmente com o passar do tempo.
        A noção do vazio absoluto é desconfortável, provoca certa ansiedade. Queremos enchê-lo com algo.
    Já na Grécia Antiga, a questão incitava o debate. Parmênides dizia que o nada não existe e não faz sentido. Haveria apenas o Ser, que está em todos os lugares. Sua ausência significaria a existência do não Ser, que lhe parecia impossível.
       Contra essas ideias, os atomistas diziam que a realidade é composta de átomos movendo-se no vazio. Esses átomos podem se combinar para dar forma a tudo o que existe.
     Aristóteles discordava disso. Para ele, o vazio também era uma impossibilidade, mas seus argumentos eram mais concretos.
    Uma pedra cairá com velocidades diferentes num copo cheio de água ou de mel: quanto mais denso o meio, mais lento o movimento.
    Portanto, um meio vazio e com densidade zero permitiria velocidades infinitas, o que era um absurdo. Aristóteles postulou então a existência do éter, uma substância imutável que permeia o Cosmo.
     No século 17, Descartes afirmou também que um fluido preenchia o espaço, o que explicaria as órbitas dos planetas em torno do Sol: ao girar, o astro causava o giro do fluido que, por sua vez, fazia com que os planetas girassem.
     Newton mostrou que Descartes estava errado: tal fluido criaria uma fricção que causaria instabilidades nas órbitas planetárias. O espaço ficou vazio outra vez.
     Quando o escocês James Clerk Maxwell demonstrou, no século 19, que a luz era uma onda eletromagnética, teve de inventar um meio onde essa onda se propagasse. Afinal, ondas de água se propagam na água, e ondas de som, no ar. Maxwell supôs que um meio transparente, sem massa (para não atrapalhar as órbitas) e muito rígido (para permitir propagar ondas ultrarrápidas) enchia o cosmo. O éter acabou voltando. Apenas em 1905 Einstein demonstrou que o éter não é necessário, porque ondas de luz são capazes de se propagar no vácuo. O espaço ficou vazio outra vez. Durante o século 20, o conceito de campo substituiu o conceito de força e ação à distância. Todo corpo com massa cria um campo gravitacional à sua volta, que influencia outros corpos com massa. Toda carga elétrica cria um campo elétrico que influencia outras cargas etc.
      Os campos preenchem todo o espaço, criados por sua fontes. A realidade física é vista como sendo criada por campos e suas excitações. Elétrons, prótons, fótons são excitações de campos.
     Devido a flutuações típicas na escala atômica, essas partículas podem surgir até do vazio. O vazio absoluto não existe, pois sempre haverá uma energia de excitação no espaço, a agitação quântica.
    Essa energia pode criar matéria vinda do nada! Como foi descoberto em 1998, a expansão do Universo se acelera: galáxias se afastam mais rápido do que o esperado.
   A causa desse efeito é desconhecida, mas ganhou o nome de energia escura. É possível que venha dessa agitação quântica do espaço vazio. O éter, ou algo do tipo, voltou.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"