domingo, 30 de agosto de 2009

Pré-Socráticos


Pré-Socráticos, cosmologia, fenomenologia

Os Pré-Socráticos, a relatividade, o big-bang e as cordas: o Logos se fez Energia; o Verbo se fez Carne/Matéria.

Este texto busca apresentar, de forma rápida, as considerações filosóficas de autores gregos, anteriores à tríade Sócrates, Platão e Aristóteles, costumeiramente denominados Pré-Socráticos. A leitura aqui apresentada pretende não ser apenas um resumo dos principais autores deste grupo, mas tenta mostrar como várias idéias desenvolvidas neste período do nascimento da filosofia na Grécia estão fortemente relacionadas a questões abordadas pela filosofia e pela cosmologia contemporâneas.
Os filósofos pré-socráticos foram os responsáveis pelo nascimento da mentalidade filosófica e racional na Grécia Antiga, desenvolvendo um conjunto de obras que se opunham ao pensamento mítico-religioso fortemente arraigado na cultura grega de então. Mileto, na Jônia, foi o centro desencadeador dessa mudança. “Suas pesquisas, idéias e novas propostas explicativas do universo coincidem com o aparecimento da filosofia, uma nova forma de conhecimento, mais razão que fantasia, geradora de uma nova mentalidade e novos paradigmas” (SANTOS, 2001, p.12). O foco desse novo pensar foi, inicialmente, a cosmologia, resultado do esforço de explicar os seres e a realidade em seus primórdios. Como destaca Santos (2001), é preciso não perder de vista a distância temporal e as dimensões cultural e existencial que nos separam do modo grego de pensar e compreender o mundo, e atentar para tudo aquilo que ficou e acabou por constituir um legado civilizatório. Os textos, ou melhor, os fragmentos que nos chegaram das formulações filosóficas dos pré-socráticos devem-se ao trabalho dos doxógrafos – autores que tomaram a si o trabalho de compilar as opiniões dos antigos filósofos.

sábado, 29 de agosto de 2009

TALES DE MILETO


O primeiro pensador deste grupo é Tales de Mileto (+ - 624 aC – 546 aC). Foi ele o primeiro a postular um princípio único constitutivo de tudo que existe. Para Tales, a água era o princípio absoluto de tudo, explicando, através dela, os tremores de terra. Tratou a alma como o princípio do movimento e, portanto, comum a todas as coisas ou seres que se movem. Santos (2001) argumenta que o nascimento do pensar filosófico ocorre aí porque um princípio único, sempre idêntico, permanece apesar das transformações do mundo visível. Não há a postulação de gerações e filiações como nas Teogonias. “O procedimento racional de Tales indica o momento em que se faz a passagem do Mito ao Logos” (SANTOS, 2001, p. 25). Trata-se de um pensamento fundado na razão pela razão. Para Tales, a água é o princípio que rege a mudança e o devir, transforma-se em tudo e a tudo pode dissolver. Tales denomina esse poder de Physis/Natureza, tomando, aqui, Natureza numa acepção mais ampla que estaque nos é contemporânea. “Para o fundador da filosofia, a Natureza (physis) é o princípio Divino. A natureza tem em si mesma (=é sua estrutura) as características do Divino (causa, governa, orienta e mantém o universo) e a realidade, na sua totalidade, outra coisa não é senão a manifestação do Divino (Natureza = Physis)... Tales entende e propõe o divino tão somente, nos limites da sua visão naturalista, como a realidade primeira e última de todas as coisas, como o início do qual tudo procede, tudo é governado e no qual tudo se resolve” (SANTOS, 2001, 26-27). Nesse sentido, Hegel (1973), em Preleções à História da Filosofia, nos mostra que a proposição de Tales enfatiza a falta de autonomia da existência singular, o fato afirmativo de que o um é gerador de todo o resto. “Temos esta consciência – ... – de reconhecer algo universal para as coisas singulares; mas a água também é uma coisa singular. Aqui está a falha; aquilo que deve ser verdadeiro princípio não precisa ter uma forma unilateral e singular, mas a diferença mesma deve ser de natureza universal... A passagem do universal para o singular é, portanto, um ponto essencial e ele entra na determinação da atividade: para isto existe então a necessidade ” (HEGEL, 1973, 203-205).
Nietzsche aborda o pensamento pré-socrático na compilação “A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos”. Ele afirma que é importante tomar a proposição da água como origem de tudo por três motivos. Primeiro, porque ela enuncia alguma coisa sobre a origem; segundo, porque isso é feito sem fabulações; e, em terceiro, porque nela já está implícito o pensamento de que ‘tudo é um’. Em razão desta última, Tales pode ser reconhecido como o primeiro filósofo grego. “... o que o impeliu a esta foi um postulado metafísico, uma crença que tem sua origem em uma intuição mística e que encontramos em todos os filósofos, ao lado dos esforços sempre renovados para exprimi-la melhor – a proposição “Tudo é um” ” (NIETZSCHE).
Sobre a construção do pensamento filosófico, Nietzsche elabora bela metáfora sobre como o pressentimento e a fantasia põem asas nos pés da filosofia. Essa aliança, defenestrada pelo empirismo positivista tacanho, é motriz do pensamento de Tales e vai marcar a filosofia de tempos em tempos. Esclarecendo, Nietzsche diz textualmente: “... a fantasia tem o poder de captar e iluminar como um relâmpago as semelhanças: mais tarde, a reflexão vem trazer seus critérios e padrões e procura substituir as semelhanças por igualdades, as contigüidades por causalidades ” (NIETZSCHE).
Mesmo que derrubemos a proposição de que “Tudo é água” fica algo, ‘uma força propulsora’, algo como “Tudo é X”. O valor de Tales está em buscar construir um conhecimento não-místico e não-alegórico. “Tales é um mestre criador, que, sem fabulação fantástica, começou a ver a natureza em suas profundezas. Se para isso se serviu, sem dúvida, da ciência e do demonstrável, mas logo saltou por sobre eles, isso é igualmente um caráter típico da cabeça filosófica. A palavra grega que designa o ‘sábio’ se prende, etimologicamente, a sapio, eu saboreio, sapiens, o degustador, sisyphos, o homem do gosto mais apurado”(NIETZSCHE).
Mais ainda: “E assim como, para o dramaturgo, palavra e verso são apenas o balbucio em um língua estrangeira, para dizer nela o que viveu e contemplou e que, diretamente, só poderia anunciar pelos gestos e pela música, assim a expressão daquela intuição filosófica profunda pela dialética e pela reflexão científica é, decerto, por um lado, o único meio de comunicar o contemplado, mas um meio raquítico, no fundo uma transposição metafórica, totalmente infiel, em uma esfera e língua diferentes. Assim, contemplou Tales a unidade de tudo o que é: e quando quis comunicar-se falou da água!”(NIETZSCHE).

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

ANAXIMANDRO DE MILETO


Discípulo e sucessor de Tales, Anaximandro de Mileto representa o conflito humano na busca de uma explicação para a multiplicidade encontrada na realidade a partir de uma única razão originária. Essa razão, para Anaximandro, ao contrário de Tales, não era a água, mas o ÁPEIRON ( o infinito, o ilimitado). “Anaximandro, companheiro de Tales, dizia que o ilimitado é totalmente responsável pela gênese e pela dissolução do universo (...). Afirmava ainda que a dissolução e, muito antes, a gênese, aconteciam repetindo-se tudo isso desde um tempo ilimitado” (Pseudoplutarco, Stromateis, 2, GB, 25-26).
Em fragmento de seu tratado “Acerca da Natureza”, preservado por Simplício (sec VI dC), aparece pela primeira vez o uso do termo ‘ARCHÉ’ para simbolizar o princípio primeiro e a realidade última de tudo. O real seria, então, o resultado de modificações ocorridas nesse princípio original.
“Anaximandro vai, aos poucos, delineando uma nova maneira de ver as coisas no interior da cultura grega. Essa nova visão (naturalista) vai se consolidando lentamente e acentuando a ruptura com a mentalidade anterior tradicional, mítico-poética. O universo passa a ser visto como uma estrutura dinâmica no interior da qual se digladiam os pares de opostos. Essa ruptura cresce na medida em que Anaximandro apresenta os contrários como elementos físicos (qualidades inseparáveis da matéria na qual se encontram e que lhes serve de sustentação), destituídos dos aspectos de divinização característicos do corpo de saber anterior” (SANTOS, 2001, 30-31).
O ápeiron de Anaximandro não se assemelha a qualquer tipo de substância ou elemento presente no mundo. Ele é 'espacialmente indefinido e qualitativamente indeterminado' (SANTOS, 2001, 31) e, portanto, não se trata de algo perceptível no mundo da physis. A esse princípio original são atribuídas características como imortalidade e poder ilimitado de governo sobre as coisas, atributos comuns também aos deuses homéricos.
As especulações filosóficas de Anaximandro nutriam-se também de suas observações do fluir das estações do ano. Essas observações levam-no a concluir sobre a necessária reversão contínua dos opostos que constituem o princípio ápeiron, assegurando, desse modo, a igualdade e a estabilidade. Os contrários que constituem o ápeiron são, para Anaximandro, o quente e o frio, o seco e o úmido. “A estabilidade e o equilíbrio que mantêm a harmonia (a ordem) do universo acontecem ‘de acordo com o decreto do Tempo’. O Tempo, que é o poderoso Tribunal ou Juiz (...), é quem decreta os prazos e regula os períodos... ” (SANTOS, 2001, 32).
Interessante observar que Anaximandro afiram ser o ápeiron dotado de um movimento terno e rotacional, semelhante a um rodamoinho (Mais interessante ainda me lembrar agora de Guimarães Rosa e o seu diabo na rua, no meio do rodamoinho – Grande Sertão). É o movimento rotacional eterno do apeíron que leva à separação dos opostos. Esse mesmo fluir em movimento tornam necessárias a destruição e a morte, condições exigidas pela ação julgadora do Tempo.
Daí desenvolve-se toda uma explicação para o surgimento do cosmos, das estrelas, dos astros, enfim. Anaximandro descreve a Terra como um astro suspenso e imóvel no espaço, cujo equilíbrio é assegurado pela ação de forças contrárias e de mesmo peso. “Há os que afirmam, como Anaximandro entre os antigos, que a Terra, em virtude de sua igualdade, permanece fixa em seu lugar. Pois, o que está situado no centro e a igual distância dos extremos, não pode se mover, ao mesmo tempo, em direções contrárias. Acha-se, portanto, necessariamente em repouso” (ARISTÓTELES, Do Céu II, 13, 295b).
Além da cosmologia, Anaximandro fez especulações sobre as origens do animal humano. Defendia a hipótese de que o ser humano desenvolveu-se a partir de animas de outra espécie. Tais especulações fizeram dele o precursor da moderna teoria evolucionista. Esse insight só foi possível porque Anaximandro nunca se esqueceu de que o homem é parte integrante da physis.
Nietzsche diz de Anaximandro que este com certeza foi o primeiro filósofo grego dado que escreveu seus textos como tal – suas frases e seu estilo são testemunhos de suas iluminações. O alemão se interroga diante da seguinte passagem do grego: “De onde as coisas têm seu nascimento, ali também devem ir ao fundo, segundo a necessidade; pois têm de pagar penitência e de ser julgadas por suas injustiças, conforme a ordem do tempo.” Como interpretar isto? – pergunta Nietzsche.
Ele mesmo responde ao apontar para possíveis usos moralistas das postulações de Anaximandro. Reflete também sobre as relações entre o vir-a-ser e a eternidade: “Pode não ser lógico, mas em todo caso, é bem humano e, além disso, está no estilo do salto filosófico descrito antes, considerar agora, com Anaximandro, todo vir-a-ser como uma emancipação do ser eterno, digna de castigo, como um injustiça que deve ser expiada pelo sucumbir.Tudo o que alguma vez veio a ser, também perece outra vez, quer pensemos na vida humana, quer na água, quer no quente e no frio: por toda parte, onde podem ser percebidas propriedades podemos profetizar o sucumbir dessas propriedades, de acordo com uma monstruosa prova experimental. Nunca, portanto, um ser que possui propriedades determinadas, e consiste nelas, pode ser origem e princípio das coisas; o que é verdadeiramente, conclui Anaximandro, não pode possuir propriedades determinadas, senão teria nascido como todas as outras coisas, e teria de vir ao fundo. Para que o vir-a-ser não cesse, o ser originário tem de ser indeterminado. A imortalidade e eternidade do ser originário não está em sua infinitude e inexaurabilidade – como comumente admitem os comentadores de Anaximandro –, mas em ser destituído de qualidades determinadas, que levam a sucumbir: e é por isso, também, que ele traz o nome de ‘o indeterminado’. O ser originário assim denominado está acima do vir-a-ser e, justamente por isso, garante a eternidade e o curso ininterrupto do vir-a-ser. Essa unidade última naquele indeterminado’, matriz de todas as coisas, por certo só pode ser designada negativamente...”( NIETZSCHE - A Filosofia na Época Trágica dos Gregos).
Impossível, para mim, não fazer relações entre as postulações de Anaximandro e os comentários de Nietzsche com a descrição cabalística da esfera do Imanifesto acima da substanciação primeira em Kether. Que a alma salte cada vez mais alto e mais longe; que ela voe alto, paire e depois desça em busca da melhor caça; que os altos penhascos sejam sua moradia eterna, seu habitat natural. Que a noite se torne grande e profunda porque o dia que dela nasce só pode ser, por natureza, por sua matriz, gigantesco e luminoso.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

ANAXÍMENES DE MILETO

Discípulo e sucessor de Anaximandro, Anaxímenes escreveu uma obra (Acerca da Natureza) na qual tratou do problema do princípio das coisas e da origem e desenvolvimento do universo a partir deste princípio. O movimento eterno deste princípio é causa do nascimento, da mudança e do desaparecimento das coisas.
Para Anaxímenes, esse princípio originário era o Ar. Simplício, em sua Física, afirma que par Anaxímenes “a natureza subjacente é uma e infinita, mas não indefinida, como afirmou Anaximandro, mas definida, porquanto a identifica com o ar; e que ela difere na sua natureza substancial pelo grau de rarefação e de densidade.” Enquanto para Anaximandro, o Ápeiron era um princípio indeterminado, para Anaxímenes, o Ar infinito – princípio originário – é infinito em grandeza, mas qualitativamente determinado. Por meio de Simplício, Anaxímenes afirma:
“O ar se diferencia nas várias substâncias segundo o grau de rarefação e condensação: e assim dilatando-se dá origem ao fogo, enquanto condensando-se dá origem ao vento e depois às nuvens; em grau maior de densidade forma a água, depois a terra e em seguida as pedras, as outras coisas derivam destas.”
Tomar o Ar como arché (princípio originário) tem por base o fato de este elemento ser invisível, sem limites, mais sutil e imperceptível. Como seus antecessores, Anaxímenes atribui ao seu princípio (Ar) características divinas, tomando como incriado, imutável e imperecível.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

PITÁGORAS DE SAMOS

Pitágoras de Samos talvez seja a principal figura do grupo de pensadores tradicionalmente denominado Pré-Socráticos. Tornou-se figura lendária e a Escola por ele fundada manteve seguidores até a época do Império Romano. Foi o primeiro pensador a usar os termos filósofo e filosofia.
A Escola Pitagórica tinha características de uma ordem iniciática, cujo principal objetivo era o aprimoramento pessoal através dos estudos filosóficos e matemáticos. O silêncio era a regra principal na Escola. Qualquer novo adepto deveria mantê-lo por um período de cinco anos para que fosse aceito finalmente no grupo. Havia também restrições severas quanto ao vestuário e à alimentação. O consumo da carne era proibido entre eles.
Por causa da lei do silêncio, não se registrou por escrito nada dos ensinamentos de Pitágoras. Os dados que nos chegaram são obras de autores e adeptos bastante posteriores que acabaram por romper o silêncio. Os ensinamentos da Escola Pitagórica são encontrados de forma clara ou oculta em vários pensadores posteriores. De Platão até Plotino (Período Romano), vários autores, mesmo que não declaradamente, beberam na fonte pitagórica. Segundo Gorman ...., p.125: “... as doutrinas de Pitágoras foram pregadas abertamente por um período de mil e duzentos anos, que se estendem do século VI aC ao século VI dC, após o que a Idade do Obscurantismo destruiu praticamente tudo. Em Bizâncio, contudo, havia muitos pagãos que, às escondidas, preservaram os antigos valores que reapareceram no Renascimento italiano, quando um bizantino, chamado Pleto, anunciou o retorno dos antigos deuses em sua obra intitulada leis.”
Mas quais eram os principais pontos do pitagorismo? Em se tratando de Pitágoras, é conhecimento bastante difundido que sua escola filosófica desenvolveu-se em torno da noção e do valor do número como entidade explicativa do mundo. Aristóteles, na sua Metafísica, afirma que, para os pitagóricos, os princípios matemáticos – ou seja, os números – são a origem das coisas. Fica claro, portanto, que para Pitágoras, os números ocupam o mesmo lugar que os princípios materiais propostos pelos pensadores que lhe foram anteriores. A matemática tem sua importância enquanto fundamento da ordem e da unidade do mundo.
É importante lembrar que, na época de Pitágoras, não se usavam os numerais indo-arábicos. Usavam-se seixos em disposição espacial no chão ou outra superfície. Daí a relação entre significado aritmético e significado geométrico. A tetraktys, figura abaixo


tinha status de figura sacra e sobre ela faziam-se juramentos. Essa figura representa o número 10 numa disposição geométrica cujos lados são formados pelo número 4. Cada número na seqüência 1-10 é analisado em suas potencialidades significativas e as oposições entre os números explicam oposições entre as coisas. A partir da oposição fundante do par/ímpar, os pitagóricos desenvolvem um quadro das oposições fundamentais (limite/ilimitado, unidade/multiplicidade, direita/esquerda, macho/fêmea, quietude/movimento, reta/curva, luz/trevas, bem/mal, quadrado/retângulo). A harmonia, que se revela especialmente na música, é a responsável pela conciliação desses opostos.
Tomando como os números como base de uma metafísica refinada, os pitagóricos elaboraram doutrinas cosmológicas e antropológicas. Para Filolau, pensador pitagórico, a diversidade encontrada nos elementos corpóreos devia-se às formas geométricas das particulares que os formavam. Sua cosmogonia estabelecia a existência de um fogo central – a mãe dos deuses ou Héstia – que atrai para si as partes do ilimitado que o circundam. Essas partes são limitadas e plasmadas por esta atração. A repetição desse processo forma o universo. Para Abbagnano 1976, p. 41, “é notável que, em conformidade com esta cosmogonia, os pitagóricos cheguem a uma doutrina cosmológica que os faz contar entre os predecessores de Copérnico. O mundo é por eles concebido como uma esfera, no centro da qual está o fogo originário, e em trono dele movem-se de ocidente para oriente, dez corpos celestes...” O movimento harmônico dos corpos celestes produz um som musical que Pitágoras denominou ‘música das esferas’. Além do cosmos, a harmonia está presente na alma humana, justificando a elaboração de uma ética pautada na justiça, essa, por sua vez, representada por um número quadrado. Do número ao número, a perfeição não está no começo, mas no fim.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

XENÓFANES

A Escola Eleática trata o devir como aparência assumindo a substância como princípio metafísico. Para a escola eleática, a substância não é vista como elemento corpóreo (como para os filósofos de Mileto) ou um número (como para os pitagóricos), mas “...como substância, como permanência e necessidade do ser enquanto ser” (ABBAGNO, 1976, p.43).
Para eles, a substância é o ser que é e deve ser: é o ser na sua unidade e imutabilidade, que faz dele o único objeto de pensamento, o único termo da pesquisa filosófica. Ele pressupõe indubitavelmente a pesquisa cosmológica dos jônicos e dos pitagóricos, mas subtrai-a ao seu pressuposto naturalista e trá-la pela primeira vez ao plano ontológico em que deveriam enraizar-se os sistemas de Platão e de Aristóteles.”(ABBAGNO, 1976, p.43)
O eleatismo iniciou-se com Xenófanes, o primeiro a afirmar a unidade do ser. Além disso, criticou também o antropomorfismo religioso dos gregos. Para ele, a divindade identifica-se com o universo, um deus-tudo eterno. Em fragmento de sua Física, Simplício registra que “Teofrasto diz que Xenófanes de Cólofon, mestre de Parmênides, supôs que o princípio era um só ou que a totalidade do que existe era uma (nem limitada, nem ilimitada, nem em movimento, nem em repouso)”.
Fragmentos do próprio Xenófanes evidenciam sua concepção de Deus:
“Existe um só deus, o maior dentre os deuses e os homens, em nada semelhante aos mortais quer no corpo, quer no pensamento.”
“Todo inteiro vê, todo inteiro entende, todo inteiro ouve.”
“Permanece sempre imóvel no mesmo lugar; e não lhe convém mover-se de um lugar para outro.”
Este último fragmento, segundo Hegel (1973), permite observar um mudança na concepção filosófica de movimento que, a partir de Xenófanes, deixa de ser um movimento objetivo (como um surgir e desaparecer na filosófica física) e passa a ser encarado como subjetivo, sensível, aparente, fruto das percepções dos sentidos, posto que a essência em si é imóvel.
Hegel (1973) reconhece, ainda, que, com a escola eleática, o pensamento é, pela primeira vez, tomado em sua essência, como busca de conceitualização, como origem e destino abstrato das coisas: “O pensamento está assim, na escola eleática propriamente e pela primeira vez, manifestado livre para si”.
Deus, para Xenófanes, não nasce, não se modifica e não morre, é eterno. Eterno é, entretanto, uma palavra problemática, pois nossa tendência é pensarmos em uma extensão temporal infinita. Porém, o termo aídion/eterno corresponde àquilo que é igual a si mesmo, sempre presente, atemporal.
Se a essência é concebida como imóvel e eterna, o devir, a mudança, o movimento é resultado da percepção subjetiva e, portanto, deve integrar o terreno da opinião: “A mudança, eliminada da essência, e a multiplicidade passaram para o outro lado, para a consciência, para alguém que opina” (Hegel 1973).
É difícil pensar em Xenófanes como fundador da Escola de Eléia já que, por seus próprios testemunhos, levou uma vida andarilha e errante. E embora ele e Parmênides partam de uma mesma orientação filosófica a respeito de deus, reduzindo a realidade ao UNO e a o SER, suas concepções de uno e de ser mostram-se bastante diferenciadas. Assim, considera-se Parmênides como o fundador do eleatismo.